A histórica eleição presidencial de 2026 teve um momento decisivo na Avenida Paulista, onde cerca de 2 milhões de pessoas se reuniram em um gigantesco ato de apoio à candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O evento antecedeu a virada nas urnas que garantiu a reeleição do petista com uma margem de 4,4 milhões de votos sobre seu principal adversário, Flávio Bolsonaro (PL), contrariando as pesquisas iniciais e o cenário político da América Latina.
A guinada conservadora na região e o contexto internacional Enquanto países vizinhos como a Colômbia viram candidatos da direita radical derrotarem a esquerda — a exemplo da vitória de Abelardo De La Espriella sobre Iván Cepeda —, o Brasil escolheu um caminho diferente. Para o professor de Relações Internacionais André Araújo, o avanço da extrema-direita na América Latina está ligado à busca por respostas rápidas para crises econômicas e de segurança, além da influência da política externa do segundo mandato de Donald Trump na região.
“[…] Há uma percepção generalizada de descontentamento com as condições de vida, especialmente em relação à economia e à segurança pública. Na medida em que os governos não entregam resultados no curto prazo — devido inclusive a tensionamentos internos —, o eleitorado opta por outra linha político-ideológica a cada ciclo eleitoral […] O segundo mandato de Donald Trump apresenta uma política externa mais ativa na América Latina, inclusive com ações militares. A atuação estadunidense soma-se às pautas internas locais, influenciando, por exemplo, a discussão sobre segurança pública ao declarar grupos do crime organizado como organizações terroristas. Além disso, as sanções aplicadas visam impactar a política doméstica ao transmitir a percepção de um aparente isolamento internacional do governo afetado”, explica o especialista.
A retomada da Avenida Paulista pela esquerda Historicamente marcada por protestos conservadores e pelo impeachment de Dilma Rousseff em 2016, a principal via paulistana voltou a ser o epicentro de grandes atos progressistas no segundo turno de 2026. A cientista política Tathiana Chicarino destaca que essa ocupação representou uma virada simbólica e estratégica para a esquerda.
O poder do contágio digital e das ruas Segundo a especialista da FESPSP, a união entre a militância física e a repercussão digital gerou um efeito transformador na reta final da disputa eleitoral brasileira.
“As grandes manifestações foram muito importantes para a vitória do Lula por fazer essa articulação entre redes e ruas, e estar na rua acaba também fomentando uma mobilização nas redes, na medida que as pessoas postam, chamam. A gente trabalha isso em termos de sociologia dos movimentos sociais com o conceito de contágio. As pessoas vão se contagiando com essa mobilização e isso é muito potente do ponto de vista político […] E essa foi uma mobilização que tinha como um horizonte muito específico, o de virar voto. Então, foi fundamental para energizar a militância, para trazer novos apoiadores, para também tirar um pouco desses fantasmas, desses pânicos morais relacionados a mobilizações de esquerda, de que são violentos, que não têm família” explica Tathiana.
União de gerações contra o medo Além da estratégia digital, o pleito foi marcado por um forte sentimento de preservação democrática e pela aproximação entre diferentes faixas etárias nas manifestações de rua paulistas.
“O medo de que o Brasil sucumbisse à extrema direita na presidência da República. Esse afeto foi extremamente mobilizador, considerando comunicação digital, mobilização de rua e tudo mais […] Mas eu acho que tem uma coisa interessante também que a gente pode trabalhar, que é a questão do pacto geracional. Jovens chamando idosos e vendo idosos na rua com muita alegria. Nós passamos por vários momentos na política mais recente em que esses encontros de gerações estavam muito fragilizados. Esse pacto geracional que faz parte de uma comunidade política, democrática, ele de alguma maneira foi observado agora nessas manifestações”.
A força da articulação popular em São Paulo, somada ao engajamento multigeracional e à conexão entre as ruas e as redes sociais, consolidou-se como o grande diferencial que garantiu a vitória de Lula e isolou o país da onda direitista que tomou conta do restante do continente latino-americano.








