As eleições de meio de mandato nos EUA foram um teste de fogo para o Partido Republicano e para o governo de Donald Trump, que viu sua baixa popularidade afetar todos os grupos de eleitores no país. Na comunidade brasileira, que soma aproximadamente 950 mil pessoas, o efeito foi visível: mais da metade dos votantes optou por eleger representantes democratas e a maioria reprovou o atual governo americano.
A tendência foi revelada por uma pesquisa do instituto AtlasIntel, que mostrou como brasileiros e latinos em geral votaram nas eleições de meio de mandato da última terça-feira (03).
A pesquisa entrevistou 878 latinos aptos a votarem entre 26 de outubro e 3 de novembro e estimou uma margem de erro de 3 pontos percentuais para mais ou para menos.
O principal dado trata sobre a aprovação do governo Trump pelas duas comunidades. Cerca de 51,6% dos brasileiros reprovam a atual administração e 49,6% acredita que a política migratória do republicano é “preconceituosa e injusta” contra os latinos.
O voto latino, forte em diversos Estados americanos, foi essencial para o resultado das eleições. O Texas elegeu a primeira governadora latina de sua história, a democrata Gina Hinojosa, e, para o Senado, James Talarico, primeiro representante democrata eleito para a Casa desde 1988. Massachusetts, estado com a segunda maior comunidade brasileira, reelegeu o senador Ed Markey, e a governadora Maura Healey, ambos democratas, para mais um mandato.
Diversa, a comunidade latina americana tem sua grande maioria formada por mexicanos, e na sequência por porto-riquenhos. Depois, grupos menores como dominicanos, cubanos formam as comunidades mais expressivas. Sul-americanos, em geral, tem menor representatividade.
Esse comportamento também foi observado por Mike Madrid, estrategista político e especialista em voto latino, em uma entrevista anterior ao Estadão. Madrid afirmou que apesar da grande influência partidária nas maiores comunidades latinas dos EUA, como Flórida e Texas, o peso do custo de vida e da forma como as dificuldades se apresentam no cotidiano é muito maior na hora de ir às urnas.
Apesar de coincidir com os votos e opiniões latinas, os brasileiros que moram nos EUA tendem a avaliar o governo menos negativamente do que o restante da comunidade. Nas intenções de voto, por exemplo, o estudo aponta que 61,6% dos latinos votaria no Partido Democrata. Quando o recorte abrange apenas os brasileiros, o número cai para 51,6%. A mesma coisa acontece na avaliação pessoal de Trump. Enquanto 67,9% dos latinos votantes afirmam desaprovar o governo do republicano, o mesmo índice cai para 51,8% quando apenas as respostas dos brasileiros são consideradas.
Apesar de não ultrapassar a questão do custo de vida e das condições econômicas, a imigração ocupou uma parcela considerável do processo de decisão no último dia 3 de novembro. O maior ponto de convergência entre o eleitorado latino como um todo e as respostas dos brasileiros é sobre o trabalho do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE, na sigla em inglês), que fiscaliza a entrada e permanência de estrangeiros nos EUA. Na pesquisa, 52,3% dos latinos responderam que são favoráveis ao fim do departamento – entre apenas os brasileiros, 51,4% querem o encerramento do serviço.
Os brasileiros divergem da opinião geral latina quando o assunto é a prisão de Nicolás Maduro, que ocorreu em 3 de janeiro deste ano, em uma ação americana que acusou o venezuelano por narcoterrorismo. Em geral, os brasileiros nos EUA não apoiaram a operação ordenada por Trump (51,6%, responderam não concordar), enquanto os latinos acreditam que a prisão deveria ter sido feita, com 56,7% dos participantes assinalando positivamente.
Em outras questões, os latinos tiveram opiniões semelhantes. Para 46,9% dos brasileiros, o esforço do governo em promover mudanças em Cuba e Venezuela foi muito importante para o voto nas midterms, enquanto para o eleitorado latino no geral esse mesmo item era crucial para 40,2% dos participantes.








