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Como votam as áreas da Baixada Santista sob letalidade policial

Mesmo em bairros impactados pelas operações Escudo e Verão, eleitores mantiveram apoio a nomes ligados à gestão da Segurança Pública.

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Como votam moradores de bairros com operações letais da PM no litoral de SP

Entre 2023 e 2024, a Baixada Santista foi cenário de intensas operações policiais, como a Escudo e a Verão, que resultaram em mais de cem mortes em periferias da região. O impacto dessas ações, que vitimaram desde crianças até adultos em contextos controversos, não impediu que, nas urnas, os moradores desses locais dessem expressiva votação aos responsáveis políticos pela estratégia de segurança pública do estado, incluindo o governador Tarcísio de Freitas e aliados.

A lógica do medo e o apoio eleitoral

Especialistas em segurança pública buscam compreender a contradição entre a violência cotidiana e o suporte político nas urnas. Jacqueline Muniz, antropóloga e professora da Universidade Federal Fluminense (UFF), destaca que o eleitor não deve ser julgado, mas sim a engrenagem que utiliza o medo como ferramenta política. Segundo a pesquisadora, o sistema opera sob uma lógica de exclusão: “Matar tem ‘mérito’ e morrer tem ‘merecimento’. Quem mata tem o ‘mérito de matar’ e quem morre ‘fez por merecer’. Essa lógica desigual é muito perigosa. E é ela que orienta, de uma certa forma, essas percepções, que são os regimes do medo. A estruturação do regime do medo que alimenta e valida práticas de exceção”. Ela completa: “Matança dá voto”.

O posicionamento oficial

Questionado anteriormente sobre as críticas internacionais à letalidade policial, o governador Tarcísio de Freitas manifestou desdém em relação às denúncias enviadas à ONU. “Sinceramente, nós temos muita tranquilidade com o que está sendo feito. E aí o pessoal pode ir à ONU, pode ir à Liga da Justiça, ao raio que o parta, que eu não tô nem aí”, disse.

Resultados nas urnas e a realidade local

Em zonas eleitorais que abrangem áreas de conflito, como a 118ª em Santos, o cenário eleitoral foi favorável ao grupo político do governo. No Morro São Bento, localidade marcada pela morte de Leonel Andrade Santos e de seu filho de quatro anos, Ryan da Silva Andrade Santos, o então secretário Guilherme Derrite obteve votações expressivas. Em São Vicente, na 340ª zona eleitoral, região que sofreu com uma chacina no Jardim Rio Branco, o padrão de votação seguiu a mesma tendência.

O papel do medo na política

Para Jacqueline Muniz, a sensação de insegurança é alimentada por autoridades que utilizam o medo como estratégia. A especialista descreve o processo como uma trilha de “susto na população”, seguida de um “surto de autoridade” e, finalmente, os “soluços operacionais”, que muitas vezes desmoralizam o trabalho de rotina da polícia.

Carlos Augusto Pereira de Almeida, pesquisador da UFABC, complementa que a esquerda enfrenta dificuldades em dialogar sobre segurança pública, um tema que a direita domina ao explorar a insegurança patrimonial. “E é complexo, né? Porque a operação do governo gerou insegurança na população local. Mas o que se contou mais foi a insegurança patrimonial. Os roubos e furtos de celulares, a sensação de não poder sair de casa tranquilo. Isso vende muito”, pontua.

Posição da Secretaria de Segurança Pública

A Secretaria da Segurança Pública de São Paulo (SSP) defende que as ações são necessárias para o combate ao crime organizado e a redução de indicadores criminais. Em nota, a pasta afirma que as operações resultaram em milhares de prisões, apreensões de armas de fogo e recuperação de veículos, destacando que o trabalho é contínuo e fundamentado em inteligência e investigação para a manutenção da ordem pública.

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