Cara-de-Barro promete muito, mas entrega o razoável
Estúdio de Batman e Superman aposta num filme de terror sem super-heróis
Logo no começo do novo filme da DC Studios, responsável por Batman e Superman, uma mulher dança em uma boate de Gotham City, e algo inédito aparece nos filmes de super-heróis: um mamilo feminino.
Não se trata sequer de uma cena de sexo, apenas de dança. Mas o vestido de Mia (Joana Ribeiro) é tão etéreo que pouco deixa oculto. Pode parecer estranho focar nesse detalhe, mas Cara-de-Barro se apresenta como um filme único entre as produções de super-heróis dos últimos 20 anos. Enquanto os filmes do gênero afastavam aspectos sexuais, continuavam a apresentar elementos de violência, mesmo os mais infantis.
O mamilo, enfim, é uma revolução, mas também uma tentação diabólica. Mia é namorada de um dos gângsteres mais perigosos de Gotham City, Markos Szabo (David Dencik), e, naquela noite, está determinada a seduzir o ator Matt Hagen (Tom Rhys Harries), recém-indicado ao Oscar.
Protagonista do filme, Hagen mora do outro lado do país, em Coast City (que faz um paralelo com Los Angeles), mas voltou à cidade natal, Gotham, para participar de um talk show. Seu melhor amigo e assistente, Corey Bowery (Joshua James), até tenta evitar a aproximação, mas Hagen se entrega a Mia.
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do Metrópoles
Ao acordarem no dia seguinte, o mafioso e seus comparsas já estão no apartamento do ator. A vingança é simples: atacar Matt e desfigurar completamente seu rosto. Assim, a vida do protagonista se transforma. Cirurgias plásticas em série não conseguem reparar os danos.
Poderoso e influente, Szabo, se livra dos processos criminais e civis. Seu advogado (Eddie Marsan) desvia o que resta de seu dinheiro. A única luz na vida de Matt passa a ser a cientista e pesquisadora Caitlyn Corr (Naomi Ackie), cujas experiências com nanocélulas reparadoras de tecidos reconstroem o rosto do ator. Alguns problemas surgem ao longo do processo, como seria de imaginar, e, até o final do filme, a descida de Matt ao inferno o transforma definitivamente no vilão Cara-de-Barro.
O filme se apresenta como uma produção de terror, e não como mais uma história de super-heróis. A melhor decisão do roteiro é permanecer fiel a essa proposta. É uma história inteira sem a presença de Batman ou de outros vilões de Gotham City.
Mesmo assim, o longa consegue explorar a corrupção do governo local e os ambientes de degradação urbana que ilustram muitas das histórias da série. Também funciona como um capítulo razoável do body horror, subgênero do terror que gira em torno da decadência e da transformação do corpo do protagonista em objeto de agonia.
Várias cenas de terror corporal são angustiantes, especialmente uma delas, ambientada no banheiro de um avião. As sequências são imaginativas, e fica claro que elas são o foco principal do diretor James Watkins. Cercadas por uma trama previsível e telegrafada, porém, as possibilidades exploradas pelo filme não chegam a surpreender.
O gostinho da inserção de elementos sexuais em um blockbuster é completamente descartado, o que reforça o conservadorismo do mainstream americano. O próprio gênero body horror agora existe em um mundo pós-A Substância, filme que, apesar de estrelar atrizes americanas, foi idealizado por uma diretora e roteirista francesa.
Boas atuações, excelente ambientação e orçamento de blockbuster resultam em um filme interessante, mas apenas um pouco acima do lugar-comum do gênero. Ousadia não é só flagelo.
Avaliação: Bom (3 estrelas)








