No início da década de 1990, uma sessão matinal no Museu de Arte de São Paulo (Masp) reuniu apenas um pequeno grupo de espectadores para assistir a uma produção estadunidense recém-chegada ao Brasil. O que poucos sabiam é que aquela sala vazia guardava o nascimento de um fenômeno da sétima arte.
O dia em que Quentin Tarantino foi descoberto por 16 pessoas
Corria o ano de 1992 e a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo realizava sua 16ª edição. O jornalista Ubiratan Brasil, conhecido como Bira, acompanhou a exibição de um longa dirigido por um cineasta ainda totalmente desconhecido do grande público.
“Eu fui em uma sessão em um sábado de manhã, ao meio-dia, lá no Masp. Se tinha 16 pessoas estava muito. E o diretor do filme estava lá. Antes de começar o filme, ele elogiou a gente e disse: ‘Obrigado. Lá fora está um sol, é sábado e vocês estão aqui dentro vendo o meu filme’”, relembrou o repórter.
A obra em questão era Cães de Aluguel e o realizador era Quentin Tarantino. “Naquele dia a gente conheceu Quentin Tarantino que jamais voltará a ter um filme [exibido] com apenas 16 pessoas presentes em uma sala. A mostra trazia isso, essas boas surpresas que depois se confirmariam no futuro”, pontuou Bira.
Meio século de diversidade cultural e resistência
Nesta temporada, a iniciativa celebra 50 anos de existência. Ao longo dessas cinco décadas, o evento foi responsável por levar às telas 11.692 filmes de 8.474 diretores oriundos de diferentes nações, recebendo nomes consagrados como Pedro Almodóvar, Wim Wenders, Manoel de Oliveira, Amos Gitai e Jafar Panahi.
“Como muitas pessoas falam, a mostra abriu as portas do cinema mundial para nós, paulistas principalmente. Os cinemas aqui passavam só blockbusters, só os americanos. Você nunca tinha a chance de ver um filme chinês, um filme coreano, um filme cubano. E a mostra era realmente uma aventura porque hoje é muito mais fácil, tudo é legendado. Naquela época, você entrava pra ver um filme indiano com legendas em italiano. Eu não falo italiano, então eu ficava mais observando as imagens e tentando entender um pouco da história. Tinha um pouco esse grau de aventura e de descobertas, que era muito gostoso”, relatou o jornalista.
As origens na ditadura e a força do público
A primeira edição ocorreu em outubro de 1977, idealizada pelo crítico Leon Cakoff para integrar o aniversário de 30 anos do Masp. Mesmo com divulgação modesta, os 11 dias iniciais atraíram mais de 15 mil pessoas para assistir a 23 títulos de 17 países.
Para a aposentada Vanda Sanae Hamanaka Serizawa, frequentadora desde o début, o festival funcionava como uma fresta de esperança em tempos difíceis. “Apesar de poucos filmes, comparado ao que ela agora se tornou, esta foi uma janela extraordinária para o mundo que não conhecíamos. Aquele era um período de ditadura e tudo era censurado. O Cakoff contornou aquela situação magistralmente e foi aprimorando a mostra a cada ano”, afirmou.
Ela também recorda a atmosfera única do evento: “Era um portal de alumbramento. Quem experimentava aquela vivência, via de regra, retornava nos próximos anos. Nos primórdios, os filmes eram de graça”.
O impacto na formação cultural da cidade é inegável. “Vários ‘mostreiros’ [como são chamados os frequentadores do festival] se profissionalizaram como diretores ou críticos de cinema. Até o ano 2000, quase não tínhamos acesso à internet. Isso era algo restrito para a área de tecnologia. Então, o diferencial da mostra sempre foram os filmes fora do mainstream [da corrente predominante]. Ela era um canal para a gente ter contato com imagens, linguagens e comportamentos de outras paragens e, sobretudo, ter a percepção crítica além da tela”, completou Vanda.
Inovação constante e a edição especial de 50 anos
Mesmo diante de crises econômicas ou de períodos desafiadores como a pandemia de covid-19 — quando apostou no formato online e em exibições em drive-in —, o festival nunca deixou de acontecer.
“Acho que o segredo da mostra é que ela é elástica, ela pode ser mega ou enorme, como neste ano em que estamos comemorando 50 anos, como ela também pode ser pequenininha. Eu acho que a gente tem que saber dançar conforme a música”, explicou Renata de Almeida, atual diretora do evento.
Para a marca histórica do Jubileu de Ouro, a programação conta com 380 produções de 93 países, além de exposições, debates, shows e o lançamento de livros, incluindo a obra Antes Que Jira Me Esqueça: Um Ensaio de Lembranças para os 50 Anos da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, escrita por Renata.







