Um grupo de hackers utilizou o Claude, da Anthropic, e o Grok, da xAI, para automatizar ataques contra mais de 400 instituições financeiras da América Latina. Segundo uma investigação divulgada nesta semana pela empresa de cibersegurança Straiker, os criminosos conseguiram roubar senhas, dados bancários e outras informações utilizando comandos de inteligência artificial (IA).
O esquema foi atribuído ao CyberCartel, grupo criminoso que atua desde pelo menos 2012 e já tinha um histórico de ataques contra empresas do setor financeiro latino-americano.
Desta vez, os hackers desenvolveram um sistema chamado CARLIY0S, que distribui diferentes tarefas entre agentes de IA e permite executar ataques com pouca intervenção humana.
De acordo com a investigação, os alvos incluíam bancos, empresas de pagamentos e fintechs. O relatório não identifica publicamente as instituições afetadas nem confirma que todas as 400 tiveram seus sistemas invadidos.
Como os hackers usaram Claude e Grok para atacar bancos?
O CyberCartel criou uma estrutura em que diferentes modelos de inteligência artificial trabalhavam juntos para identificar vulnerabilidades e explorar os sistemas das instituições financeiras.
O Claude foi utilizado como uma espécie de coordenador da operação, por meio do Cursor, ferramenta de programação com IA. A partir de comandos gerais fornecidos pelos criminosos, o sistema distribuía as atividades entre outros agentes.
Segundo a Straiker, quatro agentes baseados no Claude tinham funções específicas, incluindo identificar possíveis falhas, escrever códigos para explorar vulnerabilidades e avaliar as melhores estratégias de ataque.
O Grok, por sua vez, foi utilizado em atividades de coleta de informações. A investigação identificou cinco agentes ligados ao modelo, responsáveis por alimentar um banco de dados com informações obtidas durante as operações.
O grupo também recorreu ao Kimi, modelo desenvolvido pela empresa chinesa Moonshot AI.
Com essa estrutura, os criminosos conseguiram automatizar diferentes etapas das invasões, desde a identificação de possíveis vítimas até a exploração de vulnerabilidades e a coleta de dados.
A Straiker afirma que o sistema permitiu atacar mais de 400 alvos financeiros em poucos meses, ampliando consideravelmente a capacidade operacional do grupo.
Como os hackers conseguiram enganar as IAs?
Um dos principais pontos da investigação foi a facilidade com que os criminosos conseguiram contornar algumas das restrições de segurança dos modelos.
Ferramentas como Claude e Grok possuem mecanismos destinados a impedir a geração de instruções para atividades criminosas. Entretanto, o CyberCartel encontrou maneiras de apresentar suas solicitações como se fossem legítimas.
Segundo a Straiker, os hackers informavam aos modelos que estavam realizando testes de segurança autorizados, pesquisas acadêmicas ou atividades destinadas a identificar vulnerabilidades.
Com esse contexto, os agentes de IA chegaram a produzir códigos e instruções que poderiam ser utilizados nos ataques.
Quando uma ferramenta recusava determinada solicitação, o sistema podia recorrer a outro modelo ou utilizar códigos maliciosos previamente preparados.
A investigação aponta que os comandos enviados pelos operadores podiam ser relativamente simples, já que a estrutura de agentes ficava responsável por planejar e executar atividades mais complexas.
O sistema, porém, dependia de uma infraestrutura desenvolvida especificamente para as operações, incluindo servidores, ferramentas de segurança e programas de automação.
Quase 4,5 mil registros foram encontrados
No dia 24 de setembro, os pesquisadores da Straiker conseguiram acessar uma cópia do banco de dados utilizado pelo CyberCartel.
O material, chamado FinancialSoft, continha 4.493 registros, incluindo informações financeiras, senhas e credenciais de acesso a sistemas.
Entre os dados identificados estavam:
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2.911 endereços de e-mail;
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903 números de contas bancárias;
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391 chaves de API, utilizadas na comunicação entre sistemas;
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67 senhas armazenadas em texto simples;
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51 credenciais de acesso a portais;
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6 mecanismos que permitiam manter acesso indevido a sistemas comprometidos.
A investigação também identificou mais de 200 vulnerabilidades, incluindo falhas até então desconhecidas, chamadas de zero-day.
Parte das informações estava relacionada ao SPEI, sistema utilizado para transferências bancárias no México.
Os pesquisadores alertam que determinadas credenciais poderiam permitir o acesso indevido à infraestrutura de pagamentos, embora o relatório não estabeleça quantas transações fraudulentas foram realizadas.
A Straiker não divulgou os nomes das instituições envolvidas para evitar novos riscos de segurança. Também não há confirmação pública de bancos brasileiros entre as vítimas.
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O que dizem as empresas responsáveis pelas IAs?
Após identificar a operação, a Straiker compartilhou os resultados com as empresas responsáveis pelos modelos utilizados pelos criminosos.
A Anthropic confirmou que investigou o caso e bloqueou a credencial comprometida utilizada para acessar o Claude, interrompendo o acesso do grupo por aquele meio.
Já a xAI foi notificada sobre as atividades dos cinco agentes associados ao Grok e informou que está analisando o caso.
Segundo o Tom’s Hardware, a Straiker também tentou entrar em contato com a Moonshot AI, responsável pelo Kimi.
O episódio ocorre em meio ao aumento das preocupações com a utilização de agentes de inteligência artificial em crimes cibernéticos.
Em novembro de 2025, a própria Anthropic já havia divulgado uma investigação sobre o uso do Claude em ataques cibernéticos com elevado grau de automação.
No caso do CyberCartel, a principal descoberta foi a utilização coordenada de diferentes modelos comerciais, permitindo que um grupo relativamente pequeno de operadores conduzisse ataques simultâneos contra centenas de organizações.
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