O Ministério Público de São Paulo instaurou uma investigação formal nesta terça-feira (20) para apurar o vazamento de dados sigilosos ligados ao Smart Sampa, o robusto sistema de monitoramento via inteligência artificial da capital paulista. A falha permitiu que informações estratégicas, que possibilitavam o acesso indevido a mais de 58 mil câmeras de monitoramento, permanecessem expostas em um repositório público na internet por aproximadamente 11 meses.
A gravidade da exposição de dados
O sistema, que integra câmeras públicas e privadas para identificar foragidos e veículos furtados, teve credenciais de acesso comprometidas. Entre os dados vazados, estavam 181 combinações de login e senha de usuários autorizados, além de informações detalhadas de mais de 6 mil agentes de segurança pública. Testes realizados indicaram que, com o uso de IA, seria possível visualizar imagens em tempo real de locais sensíveis, como escolas, hospitais, creches e centros de atendimento a dependentes químicos, sem a necessidade de autenticação em duas etapas.
Medidas da Prefeitura e o servidor afastado
Após a exposição da falha, a administração municipal removeu o conteúdo do ar e iniciou o afastamento de um servidor suspeito de ser o responsável pelo incidente. A Prefeitura de São Paulo, contudo, refuta a tese de que o episódio tenha sido causado por uma vulnerabilidade intrínseca à tecnologia do Smart Sampa. Segundo a gestão, o caso é tratado como um ato criminoso individual. Como medida de contenção, a Secretaria Municipal de Segurança Urbana implementou protocolos adicionais de segurança, como senhas individuais e a obrigatoriedade de códigos via SMS para acessos.
Contratos e fiscalização do sistema
O programa, que opera sob um contrato de R$ 588 milhões firmado com o Consórcio Smart City SP, também enfrenta questionamentos sobre a falta de transparência em seus algoritmos. A Prefeitura admitiu não ter acesso ao código-fonte ou aos dados de treinamento da Sentinelx, empresa responsável pela tecnologia, e confirmou que não realiza auditorias independentes nos modelos de IA utilizados.
Histórico de controvérsias
O caso soma-se a um histórico de críticas envolvendo o reconhecimento facial em São Paulo. Entre novembro de 2024 e maio de 2026, 268 pessoas foram conduzidas a delegacias por erros do sistema, sendo 75 desses casos causados por inconsistências na leitura facial. Em um dos episódios, um entregador foi abordado equivocadamente em uma unidade de saúde, resultando em uma condenação judicial que obrigou a Prefeitura e o governo estadual a pagarem uma indenização de R$ 10 mil à vítima. A gestão municipal defende a eficácia do programa, destacando que ele já auxiliou na captura de milhares de foragidos e na localização de centenas de desaparecidos.








