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“O Rio foi sequestrado”: ex-subprefeito expõe bastidores da política em livro

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Em “Cidade Refém — Facções, milícias e políticos: O Rio foi sequestrado”, Thiago Barcellos relata episódios vividos durante sua passagem pela administração pública e questiona omissões institucionais, ocupações territoriais e o uso de recursos destinados à habitação.

O ex-subprefeito Thiago Barcellos lançou o livro Cidade Refém — Facções, milícias e políticos: O Rio foi sequestrado, pela editora Albatroz. Na obra, ele apresenta sua visão sobre a relação entre o crime organizado e a estrutura política do Rio de Janeiro, com relatos de bastidores da administração pública, interferências em ações de fiscalização e questionamentos sobre a ocupação irregular de territórios.

Barcellos foi subprefeito do Centro e da Barra da Tijuca entre 2009 e 2017. A partir dessa experiência, o autor descreve situações que, segundo seu relato, evidenciam como interesses políticos e omissões institucionais podem dificultar medidas de fiscalização e controle urbano. A publicação procura mostrar o funcionamento dessas relações dentro da máquina pública e os obstáculos enfrentados por quem tenta intervir em atividades consideradas irregulares.

Relatos de interferências durante a gestão pública

Entre os episódios apresentados no livro estão ações de fiscalização que teriam provocado reações de políticos. Barcellos relata que, após fechar estacionamentos irregulares no Centro do Rio, foi procurado por integrantes da classe política. Ele também menciona uma interdição de bar na Lapa e o fechamento de um clube clandestino na Barra da Tijuca, medidas que teriam sido seguidas por uma sequência de ligações.

Ao relembrar essas situações, o ex-subprefeito afirma que os principais obstáculos não vinham necessariamente de criminosos armados, mas de pressões relacionadas ao próprio sistema político.

“Não era o crime que me ameaçava, era o sistema político”, escreve o autor.

A partir dessa perspectiva, a obra procura demonstrar como decisões tomadas em gabinetes, reuniões e estruturas institucionais podem interferir no trabalho da administração pública. Barcellos também apresenta uma tentativa de organizar as relações entre facções criminosas, milícias e agentes políticos em uma espécie de organograma informal.

Ocupação territorial e expansão da influência criminosa

Outro eixo central do livro é a ocupação de territórios por facções e milícias. Segundo a análise apresentada por Barcellos, esses grupos ampliam sua influência por meio do controle de áreas, da exploração do mercado imobiliário, da construção e venda de imóveis e da cobrança por serviços.

O autor relaciona o crescimento populacional dessas regiões à ampliação das atividades econômicas sob influência dos grupos criminosos. Nesse cenário, o aumento do número de moradores também representaria, em sua avaliação, mais consumidores, maior arrecadação paralela e ampliação da influência eleitoral.

A publicação utiliza a Muzema, na Zona Oeste do Rio, como exemplo dos desafios relacionados às construções irregulares e à fiscalização urbana. Conforme o relato, imóveis são construídos, comercializados e ocupados sem fiscalização efetiva, enquanto diferentes órgãos públicos acabam tendo de lidar com as consequências quando as irregularidades já estão consolidadas.

O caso da Muzema ganhou repercussão nacional em 2019, quando o desabamento de dois prédios deixou 24 mortos. O episódio é citado no contexto dos problemas associados à expansão de construções irregulares e às dificuldades de controle do território.

Recursos públicos para habitação entram no debate

O livro também aborda recursos destinados a programas habitacionais e de urbanização, como Morar Carioca, Casa Carioca e Bairro Maravilha. De acordo com o levantamento apresentado pelo autor, aproximadamente R$ 5 bilhões teriam sido mobilizados entre 2009 e 2025.

Barcellos utiliza esse montante para comparar diferentes possibilidades de aplicação dos recursos na construção de moradias. Segundo suas projeções, o valor poderia financiar cerca de 12 mil apartamentos adquiridos no mercado privado.

Em outros modelos, considerando terrenos e infraestrutura, o montante poderia viabilizar entre 25 mil e 30 mil unidades habitacionais públicas. Já em um sistema de construção pública direta, a estimativa apresentada pelo ex-subprefeito chega a até 40 mil moradias.

As projeções integram a argumentação desenvolvida na obra sobre a gestão dos recursos públicos e as políticas de habitação. Os números são apresentados como cálculos do próprio autor, que utiliza as estimativas para discutir alternativas de aplicação dos investimentos.

Um diagnóstico sobre os desafios do Rio

Ao reunir relatos de sua passagem pela administração pública, episódios de fiscalização, questões habitacionais e reflexões sobre a influência do crime organizado, Thiago Barcellos apresenta um diagnóstico crítico sobre os desafios enfrentados pelo Rio de Janeiro.

Em Cidade Refém — Facções, milícias e políticos: O Rio foi sequestrado, o ex-subprefeito defende que a compreensão do problema exige olhar não apenas para os grupos criminosos que atuam nos territórios, mas também para as relações políticas e institucionais que, segundo sua análise, contribuem para a permanência dessas estruturas.

A obra encerra sua reflexão com uma mensagem que sintetiza a posição do autor sobre o futuro da cidade: “O Rio precisa ser resgatado”.

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