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Não é petista, é mãe: o voto de Angélica fala por milhões de mulheres

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Não é petista, é mãe: o voto de Angélica fala por milhões de mulheres
Matheus Leitão

Não é petista, é mãe: o voto de Angélica fala por milhões de mulheres

Casada com Luciano Huck, Angélica declara voto em Lula e expõe o que está em jogo para 83 milhões de eleitoras, maioria que vota no domingo

Matheus Leitão
21/10/2026 21:05
Reprodução/Instagram

Angélica pensou muito antes de falar e admitiu ter sentido medo. Não é difícil entender por quê. Ela vive num círculo que nunca foi simpático ao PT. Em 2014, o marido, Luciano Huck, votou com uma camiseta da campanha “Muda Brasil” e acompanhou a apuração do segundo turno ao lado de Aécio Neves, com um adesivo do 45 no pulôver, esperando comemorar a vitória contra Dilma Rousseff. Anos depois, ele chegou a planejar uma candidatura pela terceira via, contra Lula e contra Bolsonaro. Por isso, quando uma mulher desse meio grava um vídeo dizendo “não sou petista, não me vejo como de direita nem de esquerda” e, mesmo assim, anuncia voto em Lula, o gesto ultrapassa a militância. É um sinal de onde está o centro.

O vídeo veio acompanhado. Um dia antes, a própria mãe de Luciano Huck, Marta Dora Grostein, também declarou voto no petista. Não parece uma adesão de ocasião. Parece uma família inteira dizendo que, desta vez, não dá para ficar em cima do muro.

As mulheres são maioria e têm a chave da eleição

O primeiro turno terminou com Lula atrás. Flávio Bolsonaro recebeu 56,1 milhões de votos, ou 47,03% dos válidos, e Lula ficou com 53,9 milhões, ou 45,16%. São cerca de 2,2 milhões de votos de diferença. Parece muito até a gente olhar o que ficou de fora: foram 2,3 milhões de votos brancos e 3,7 milhões de nulos, quase 6 milhões de pessoas que foram às urnas e não escolheram ninguém.

E há uma maioria que pode decidir tudo. As mulheres somam 83,9 milhões de eleitoras, 52,84% do eleitorado brasileiro. É a esse Brasil que Angélica se dirige quando diz: “Penso nas mulheres, nas crianças, nas pessoas LGBTQIAPN+ e, como mãe, penso no país em que os meus filhos vão viver.”

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do Metrópoles

Ana Clara tinha 5 anos

Ana Clara brincava na porta de casa, em Niterói, quando foi atingida por disparos de uma unidade policial em patrulhamento, em 2 de fevereiro de 2021, e morreu na hora. A Justiça do Rio decidiu que o policial acusado iria a júri popular. Em 2024, Flávio Bolsonaro entrou na defesa desse policial e assinou um recurso para contestar a decisão. Mais de cinco anos depois, o julgamento foi adiado para 2027. Cobrado no debate, Flávio se defendeu com o direito à advocacia e lembrou que o PM ainda não foi condenado. A mãe de Ana Clara segue esperando, e muitas mães brasileiras fazem a mesma pergunta: por que um senador escolheu esse lado?

Igualdade salarial: o voto que diz muito

Em 2023, Lula enviou ao Congresso o projeto que tornou obrigatório o salário igual para homens e mulheres na mesma função. Na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado, Flávio Bolsonaro anunciou voto contra, ao lado de Rogério Marinho, com o argumento de que a lei não seria efetiva e aumentaria os processos na Justiça, embora os dois dissessem defender o princípio. A lei foi aprovada e Lula a sancionou em 3 de julho de 2023.

Eliziane Gama e a CPI da Covid

No primeiro dia da CPI da Covid, em abril de 2021, enquanto o país contava seus mortos, Flávio foi à comissão defender o governo do pai. Diante de uma CPI sem nenhuma mulher entre os titulares, ele ironizou as senadoras, dizendo que as mulheres já tinham sido mais respeitadas e mais indignadas, e que elas se contentavam em acompanhar tudo de longe. A senadora Eliziane Gama reagiu na hora e avisou que nenhuma delas aceitaria “ironia machista”. E lembrou que as mulheres estavam, sim, indignadas, e com a inação do governo diante da pandemia.

Uma família, um padrão

A fala de Flávio não surgiu do nada. Jair Bolsonaro foi condenado na Justiça por ofensas à deputada Maria do Rosário e à jornalista Patrícia Campos Mello. Também insinuou que a única filha seria fruto de uma “fraquejada”, e já declarou que não empregaria homens e mulheres com o mesmo salário. Em 2026, Paulo Figueiredo, aliado do clã, disse que as mulheres votam mal, e Flávio levou seis dias para discordar. A própria Michelle Bolsonaro contou ter sido desrespeitada e maltratada por Flávio.

O que as mulheres têm a perder

Do outro lado estão políticas que chegam à vida real das brasileiras. Mais de 17 milhões de famílias do Bolsa Família são chefiadas por mulheres, que também têm prioridade no Minha Casa Minha Vida. O programa Dignidade Menstrual já atendeu 2,1 milhões de pessoas com absorventes gratuitos pela Farmácia Popular. O SUS passou a garantir mamografia para mulheres de 40 a 49 anos, mesmo sem sintomas. Em fevereiro de 2026, Lula lançou o Pacto Nacional contra o Feminicídio, junto com o Legislativo e o Judiciário.

O voto de quem não costuma votar no PT

Angélica resume o que espera do próximo governo: um país “onde quem governa olhe para as pessoas com carinho, sem preconceito, sem debochar da dor, das lutas de ninguém”. Não é um discurso de partido. É o pedido de uma mãe, e de milhões de mulheres que são maioria nas urnas. No domingo, se elas votarem, serão elas que vão escolher o presidente.

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